Por que toda Loja Adonhiramita é dedicada a São João de Jerusalém?

Ao amado irmão Antonio Reboucas

Quando o maçom adonhiramita escuta que sua Loja é dedicada a São João de Jerusalém, ele pode imaginar que se trata apenas de uma fórmula antiga repetida por costume. Mas não é. Essa expressão guarda uma longa história. Ela nasceu da união de três mundos: a tradição cristã dos patronos, a antiga Maçonaria das Lojas de São João e a influência cavalheiresca francesa do século XVIII.

Por isso, para responder corretamente, não basta dizer que a Loja é dedicada a São João de Jerusalém porque o ritual afirma isso. O ritual preservou a fórmula, mas a origem dela é mais profunda. São João tornou-se patrono da Maçonaria porque, dentro do ambiente cristão europeu em que a Maçonaria moderna se formou, era comum que corporações, ofícios, confrarias e associações tivessem um santo protetor, isto é, uma figura espiritual e moral tomada como exemplo. Na Idade Média e no início da modernidade, muitas sociedades de ofício na Inglaterra e na Escócia eram dedicadas a um santo específico; esse santo recebia devoção especial do grupo e era visto como protetor moral daquela associação.

A Maçonaria herdou esse costume. Como nasceu de um ambiente de construtores, confrarias e sociabilidade cristã europeia, ela também passou a se reconhecer em torno de uma figura patronal. No caso maçônico, essa figura foi São João, em alguns contextos São João Batista, em outros São João Evangelista, e, em várias tradições, os dois juntos, chamados de “os Santos Joões”.

O que significa dizer que São João é patrono?

Patrono não quer dizer objeto de adoração. Na linguagem tradicional, patrono é aquele a quem uma igreja, associação, cidade, profissão, ordem ou corporação é dedicada. É uma figura tomada como referência, proteção e modelo.

No caso da Maçonaria, São João é patrono porque sua figura reúne elementos que falam diretamente à iniciação maçônica: luz, preparação, purificação, palavra, verdade, disciplina moral e transformação interior.

São João Batista aparece como o precursor, aquele que prepara o caminho, chama ao arrependimento, batiza nas águas e anuncia a luz que viria. Por isso, ele se ajusta perfeitamente ao simbolismo do Aprendiz: o homem que sai do mundo profano, passa por uma purificação simbólica e começa uma nova vida moral. Já São João Evangelista aparece ligado ao Verbo, à luz, ao amor fraterno e à dimensão mais contemplativa da tradição joanina. O prólogo de seu Evangelho, “No princípio era o Verbo”, dialoga diretamente com a ideia maçônica da Palavra, da Luz e da busca pela Verdade.

Assim, São João tornou-se patrono porque representa aquilo que a Loja deseja produzir no iniciado: um homem mais consciente, mais justo, mais iluminado e mais disposto a vencer suas paixões.

A Maçonaria já era “joanina” antes do Rito Adonhiramita

A tradição de dedicar a Loja à São João é anterior ao Rito Adonhiramita. Ela aparece nos antigos catecismos e exposições maçônicas do início do século XVIII.

Um exemplo importante é o texto Masonry Dissected, de Samuel Prichard, publicado em 1730. Nele, ao ser perguntado de onde vem, o maçom responde: “Da Santa Loja de São João”. O mesmo texto explica que os maçons se denominavam dessa forma porque São João era considerado o precursor do Salvador e havia traçado a primeira linha paralela ao Evangelho.

Isso mostra que, antes de a fórmula adonhiramita falar em “São João de Jerusalém”, já existia uma linguagem maçônica consolidada em torno da Loja de São João. Portanto, a origem primeira não é adonhiramita. O Adonhiramita recebe, organiza e ritualiza uma tradição joanina que já circulava na Maçonaria europeia.

Também as Constituições de Anderson, de 1723, reforçam esse ponto. Elas determinavam que os irmãos de Londres e Westminster deveriam se reunir anualmente em comunicação e festa no dia de São João Batista ou no dia de São João Evangelista. O texto ainda registra que, nos anos imediatamente anteriores, a reunião vinha ocorrendo no dia de São João Batista.

Esse detalhe é fundamental. A Maçonaria moderna institucionalizada nasceu em torno das festas de São João. A própria tradição registra que a primeira Grande Loja de Londres foi formada em 24 de junho de 1717, dia de São João Batista.

Portanto, São João é patrono porque a Maçonaria moderna cresceu dentro de uma prática já joanina: assembleias, festas, eleições, instruções e catecismos estavam ligados ao nome de São João.

Por que São João Batista ganhou tanta força?

Entre os dois São Joões, São João Batista ganhou grande força porque sua simbologia é muito próxima da iniciação.

Ele é o homem do deserto, da disciplina, da retidão e da preparação. Ele batiza nas águas, chamando o homem a abandonar uma vida antiga e iniciar uma vida nova. Essa imagem é profundamente iniciática. A Maçonaria não pratica batismo religioso, mas utiliza a linguagem simbólica da purificação, da passagem e do renascimento moral.

Por isso, quando a antiga instrução adonhiramita interpreta a expressão “Venho de uma Loja de São João”, ela associa essa resposta à ideia de purificação pelas águas. O sentido é claro: quem vem da Loja de São João vem de um espaço de preparação, limpeza moral e nascimento para uma nova condição interior. O material brasileiro sobre o patrono maçônico também cita essa passagem da Compilação Preciosa, afirmando que a resposta “Venho da Loja de São João” significaria, simbolicamente, “acabo de purificar-me pelas águas do Batismo”.

Essa é a causa simbólica mais forte: São João Batista é patrono porque representa a passagem do homem antigo para o homem renovado. O Aprendiz Maçom começa exatamente aí.

Então de onde vem o “de Jerusalém”?

A parte “de Jerusalém” tem outra origem. Ela vem do imaginário cavalheiresco e francês do século XVIII.

No século XVIII, especialmente na França, muitos autores maçônicos tentaram explicar a origem da Maçonaria ligando-a às Cruzadas, aos cavaleiros, à Terra Santa e à reconstrução espiritual do Templo. Essa narrativa aparece com muita força no famoso Discurso de Ramsay, de 1736/1737.

Ramsay sustentava que, no tempo das Cruzadas, príncipes, senhores e cidadãos teriam se unido para restaurar os templos cristãos na Terra Santa. Segundo essa tradição, a Ordem maçônica teria se unido intimamente aos Cavaleiros de São João de Jerusalém; desde então, as Lojas teriam passado a receber o nome de Lojas de São João.

Aqui está uma das chaves do problema. A expressão “São João de Jerusalém” não aparece no vazio. Ela nasce do encontro entre a antiga Loja de São João e a narrativa francesa que aproximava a Maçonaria dos Cavaleiros de São João de Jerusalém, isto é, dos Hospitalários, depois ligados à tradição de Rodes e Malta.

Historicamente, a Ordem de São João de Jerusalém teve origem na Terra Santa, na segunda metade do século XI. A própria Ordem de Malta informa que mercadores de Amalfi receberam autorização para construir em Jerusalém uma igreja, convento e hospital dedicados a São João Batista, destinados a assistir peregrinos. Em 1113, o papa Pascoal II reconheceu a Ordem de São João, colocando-a sob proteção da Igreja.

Portanto, quando a Maçonaria francesa do século XVIII fala em “São João de Jerusalém”, ela está evocando esse mundo: Jerusalém, hospitalidade, cavalaria, defesa dos peregrinos, caridade, serviço e reconstrução espiritual.

A lenda ritual não é a mesma coisa que história comprovada

Aqui é preciso cuidado. A Maçonaria do século XVIII gostava de construir genealogias simbólicas. Ela falava de Noé, Salomão, Templo, Cruzadas, cavaleiros, ordens antigas e reconstrutores da Terra Santa. Muitas dessas narrativas não devem ser lidas como história documental literal, mas como história simbólica.

A explicação segundo a qual os “cavaleiros maçons” se uniram aos Cavaleiros de São João de Jerusalém pertence a esse tipo de narrativa. Ela explica a identidade moral do rito, mas não prova que houve uma continuidade histórica direta entre maçons medievais cruzados e a Maçonaria especulativa moderna.

Isso não torna a narrativa inútil. Ao contrário: ela revela o que os maçons do século XVIII queriam dizer sobre si mesmos. Eles se viam como herdeiros simbólicos de construtores, defensores da fé, servidores da humanidade e reconstrutores de templos, não apenas templos de pedra, mas templos morais.

O papel da França: “Saint-Jean de Jérusalem”

A expressão também ganhou força porque, na França, existiram Lojas com o título Saint-Jean de Jérusalem.

Há documentação histórica sobre uma Loja em Avignon desde 1737, e a fusão de oficinas em 1749 sob o título Saint-Jean de Jérusalem d’Avignon. Essa documentação mostra que o nome não era apenas uma ideia abstrata, mas também um título usado por oficinas maçônicas reais no século XVIII.

Outro ponto importante é que, em 1745, o conde de Clermont, novo Grão-Mestre das Lojas da França, deu os estatutos de sua Loja Saint Jean de Jérusalem para servirem de modelo às Lojas do reino.

Isso ajuda a entender por que o Adonhiramita, rito fortemente ligado ao ambiente francês, conservou essa expressão. O Rito não inventou do nada a fórmula “São João de Jerusalém”; ele a recebeu de uma cultura maçônica francesa em que “Loja de São João” e “Saint-Jean de Jérusalem” já tinham peso simbólico e institucional.

Onde entra o Rito Adonhiramita?

O Rito Adonhiramita entra como aquele que fixou essa tradição em linguagem ritual própria.

Na tradição adonhiramita, especialmente na Compilação Preciosa da Maçonaria Adonhiramita, a pergunta “a quem era dedicada a Loja onde fostes recebido?” recebe a resposta tradicional: a São João de Jerusalém. Essa resposta adonhiramita é a cristalização ritual de tudo que vinha antes: a tradição joanina, as festas de São João, as Lojas de São João, o discurso cavalheiresco francês e a memória dos Hospitalários.

Por isso, a resposta correta não é apenas: “a Loja é dedicada a São João de Jerusalém porque o ritual diz”. A resposta mais completa é:

O ritual diz isso porque o Rito Adonhiramita herdou a antiga tradição das Lojas de São João, recebeu a influência francesa que ligava a Maçonaria aos Cavaleiros de São João de Jerusalém e transformou essa herança numa fórmula de identidade ritual.

Mas quem é, afinal, São João de Jerusalém?

Aqui existem três leituras principais.

A primeira leitura identifica São João de Jerusalém com São João Batista. Essa é a leitura mais forte no ambiente adonhiramita brasileiro contemporâneo. Ela se apoia na data de 24 de junho, na fundação da primeira Grande Loja, nas Constituições de Anderson, na simbologia do batismo e no fato de que a Ordem de São João de Jerusalém possuía ligação histórica com São João Batista. A Enciclopédia Maçônica de Mackey também afirma que a antiga expressão “Loja do Santo São João de Jerusalém” provavelmente se refere a São João Batista.

A segunda leitura identifica São João de Jerusalém com São João Evangelista, especialmente por causa do Evangelho de João, do símbolo do Verbo e da Luz, e da presença do Evangelho de João em tradições maçônicas antigas. Alguns autores franceses consideram que, diante da incerteza documental, o Evangelista permanece uma hipótese forte.

A terceira leitura identifica São João de Jerusalém com São João Esmoler, ou São João do Chipre, defendida por Étienne-François Bazot no século XIX. Essa interpretação teve influência em parte da literatura maçônica, inclusive no Brasil, mas possui problemas históricos sérios. O próprio debate francês reconhece que Bazot misturou São João Esmoler, patriarca de Alexandria, com Gérard Tenque e com a tradição hospitalária de Jerusalém.

Para o Rito Adonhiramita brasileiro, a interpretação mais segura é a primeira: São João de Jerusalém deve ser compreendido principalmente como São João Batista, dentro de uma moldura simbólica ligada a Jerusalém e à Ordem Hospitalária.

Por que a Loja é dedicada a ele?

A Loja é dedicada a São João de Jerusalém porque ele representa, ao mesmo tempo, três ideias centrais para a Maçonaria.

A primeira é a purificação. São João Batista chama o homem à mudança de vida e o conduz simbolicamente às águas. A iniciação maçônica também é uma passagem: o profano deixa uma condição anterior e começa um caminho de aperfeiçoamento.

A segunda é a luz. São João é o precursor da Luz. Ele aponta para algo maior do que ele mesmo. A Maçonaria também não se propõe como fim em si mesma; ela aponta para a Verdade, para o Grande Arquiteto do Universo e para o aperfeiçoamento moral do homem.

A terceira é a construção espiritual. Jerusalém remete ao Templo, à cidade santa, à reconstrução e à busca de uma ordem superior. A Loja dedicada a São João de Jerusalém é, portanto, uma Loja voltada à construção interior, onde cada irmão trabalha sua pedra bruta para participar de uma obra maior.

Por isso, São João de Jerusalém é nosso patrono não apenas por tradição, mas por adequação simbólica. Ele é patrono porque sua figura ensina aquilo que a Loja pretende realizar: preparar, purificar, iluminar e reconstruir.

Quem usa essa tradição?

A tradição das Lojas de São João é ampla. Ela aparece na Maçonaria inglesa antiga, em catecismos do início do século XVIII, nas Constituições de Anderson, em tradições francesas, em ritos de inspiração francesa e em várias formas de Maçonaria simbólica.

Já a forma “São João de Jerusalém” é mais específica. Ela aparece com força na Maçonaria francesa do século XVIII, na influência do Discurso de Ramsay, nos títulos de Lojas francesas como Saint-Jean de Jérusalem e, de modo muito importante para nós, no Rito Adonhiramita.

Em algumas tradições anglo-americanas, a fórmula mais comum é dizer que a Loja é dedicada aos Santos Joões, isto é, São João Batista e São João Evangelista. A Grande Loja de Ohio, por exemplo, apresenta os dois como patronos da Maçonaria e reconhece a importância de ambos no ritual e na tradição maçônica.

Em outras tradições, especialmente após a união das Grandes Lojas inglesas em 1813, a dedicação passou a ser entendida de maneira diferente, muitas vezes associada a Deus e à memória de Salomão. Mackey registra que, nos Estados Unidos, a dedicação aos Santos Joões permaneceu muito forte, enquanto na Inglaterra o uso se deslocou para outra fórmula.

Portanto, nem toda Maçonaria usa exatamente a expressão “São João de Jerusalém”. Mas toda Loja Adonhiramita que preserva essa tradição está ligada a esse tronco joanino francês e adonhiramita.

O que devemos entender hoje?

Hoje, quando uma Loja Adonhiramita se declara dedicada a São João de Jerusalém, ela não está fazendo uma afirmação arqueológica sobre uma origem medieval comprovada. Ela está afirmando uma identidade ritual.

Ela diz, em linguagem simbólica, que seus trabalhos estão colocados sob o signo de São João: o santo da preparação, da purificação, da retidão, da palavra verdadeira e da luz. E diz também que essa Loja se reconhece na memória de Jerusalém: cidade do Templo, da reconstrução, da peregrinação e do combate espiritual.

A Loja, então, não é apenas um lugar de reunião. É uma oficina moral. É um espaço onde o homem é chamado a vencer suas paixões, corrigir seus defeitos, praticar as virtudes e trabalhar pela construção de um templo interior.

É por isso que São João de Jerusalém é nosso patrono. Não por enfeite histórico. Não por simples repetição ritual. Mas porque a sua figura resume aquilo que a Maçonaria deseja fazer com o iniciado: conduzi-lo da ignorância à luz, da dispersão à ordem, da impureza simbólica à purificação, da pedra bruta ao trabalho consciente.

Conclusão

Toda Loja Adonhiramita é dedicada a São João de Jerusalém porque essa fórmula reúne a tradição joanina da Maçonaria, a memória das antigas Lojas de São João, a influência francesa dos Cavaleiros de São João de Jerusalém e a interpretação própria do Rito Adonhiramita.

A origem mais antiga está na prática maçônica de reunir-se e reconhecer-se em torno de São João. A causa histórica está no costume europeu de dedicar corporações e ofícios a um patrono. A causa maçônica está nas festas de São João, nos catecismos antigos e nas Constituições de Anderson. A causa francesa está na narrativa de Ramsay e nas Lojas chamadas Saint-Jean de Jérusalem. A causa adonhiramita está na Compilação Preciosa, que fixou essa herança em forma ritual.

No fim, a pergunta não é apenas “quem foi São João de Jerusalém?”, mas “por que a Maçonaria se reconheceu nele?”. A resposta é simples e profunda: porque nele encontrou a imagem do homem que prepara o caminho para a luz.


Bibliografia consultada

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PRICHARD, Samuel. Masonry Dissected. Londres, 1730. Texto digital consultado em Skirret.

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