O V∴ M∴ de minha L∴ vos S∴ por T∴ V∴ T∴

Ao amado irmão Luiz Fernando Veríssimo

A expressão “O V∴M∴ da minha Loja vos saúda por três vezes três” deve ser entendida, antes de tudo, como uma saudação de procedência e regularidade ritual: o Ir∴ visitante não fala apenas em nome próprio, mas transmite ao V∴M∴ da oficina visitada a saudação do V∴M∴ de sua própria Loja. Em linguagem simbólica, “três vezes três” equivale a nove, número que, na tradição maçônica, concentra uma ampliação do valor do três: tríades estruturais, repetição solene, perfeição de ciclo e intensificação da honra ritual. Em testemunhos públicos franceses e escoceses do século XIX, essa frase aparece integrada a um pequeno diálogo de recepção do visitante, no qual se pergunta de onde ele vem, o que traz, o que se faz em sua Loja e o que deseja na Loja visitada.

No plano histórico, o telhamento, em português brasileiro também chamado, em muitos meios, de “trolhamento”, é o conjunto de verificações pelas quais a Loja se assegura de que está coberta, isto é, protegida contra irregularidade, indiscrição e falsa identificação. O termo se articula à tradição do tyler/tiling inglês e do tuileur/tuilage francês. A saudação “três vezes três” está diretamente ligada a esse universo de reconhecimento, recepção e cobertura ritual, e não a uma simples fórmula de cortesia social. 

No Rito Adonhiramita, contudo, a situação é mais delicada do que a repetição corrente da frase às vezes sugere. O texto-base histórico mais importante, o livro Recueil précieux de la maçonnerie adonhiramite, atribuído a Louis Guillemain de Saint-Victor, contém, em sua parte publicamente consultável nesta pesquisa, o diálogo clássico “De onde vindes?”, “Que se faz na Loja de S. João?”, “Que trazeis?” e “Que vindes fazer aqui?”, mas não me permitiu localizar, nessa porção acessível, a fórmula exata “vos saúda por três vezes três”. Por isso, a conclusão mais rigorosa é esta: a frase é claramente maçônica, está firmemente atestada em tradições públicas franco-escocesas e em transcrições públicas luso-brasileiras posteriores; porém, a sua presença exata no núcleo primário adonhiramita consultado aqui não pôde ser comprovada diretamente e deve ser tratada como não especificada nessa fonte-base.

Em consequência, para um leitor maçônico e leigo informado, a melhor leitura é a seguinte: a expressão não é um “segredo essencial” em si, mas uma fórmula honorífica e legitimadora que condensa transmissão de saudação, reconhecimento da cadeia de autoridade da Loja de origem, e o simbolismo do nove como intensificação do três. Onde ela aparece, costuma marcar ingresso regular, cortesia fraterna e cobertura ritual. No Adonhiramita brasileiro moderno, ela sobrevive sobretudo por tradição ritual transmitida em manuais, espelhos públicos e memória litúrgica; no estrato histórico mais antigo do rito, sua ocorrência exata exige cautela documental.

Contexto histórico do telhamento e da fórmula

Em linguagem maçônica, “telhar” a Loja significa cobri-la e verificar a legitimidade de quem entra ou nela permanece. O parentesco lexical com o francês tuileur e com o inglês tyler não é acidental: o Tyler é o oficial encarregado de guardar a porta e “tyle” a Loja em cada grau, respondendo a pancadas e mantendo o recinto protegido; já o uso brasileiro “telhamento/trolhamento” designa, de modo prático, o questionário ou prova discreta de reconhecimento aplicada a visitantes. Em suma, telhamento é simultaneamente proteção do espaço e prova de identidade ritual

O antecedente inglês mais antigo que encontrei para essa família de fórmulas não usa ainda o enunciado “três vezes três”, mas traz a lógica da saudação triplicada. Em Masonry Dissected, de Masonry Dissected, atribuído a Samuel Prichard, surge a forma “greet you, greet you, greet you”, associada a uma recomendação fraterna e à entrada na Loja. Isso indica que, no ambiente inglês do início do século XVIII, a ideia de tripla saudação já estava ritualizada, ainda que sem a formulação aritmética francesa “trois fois trois”. 

A formulação francesa madura aparece de forma muito clara em testemunhos públicos posteriores. No Guide des maçons Écossais, espelho ritual francês do universo escocês, o visitante responde: “Le Me de ma loge vous salue par trois fois trois”, seguida da explicação do que se faz em sua Loja e de seu pedido por “une place parmi vous”. Em outras palavras, a fórmula não é isolada: ela integra um protocolo de recepção do visitante. A sequência pública é estável o bastante para reaparecer em descrições literárias e de divulgação do século XIX, o que mostra que já era reconhecível fora do círculo estritamente iniciático. 

Assim, historicamente, a expressão parece resultar de uma evolução: da saudação tripla inglesa para a aritmetização francesa da honra em “três vezes três”, em contexto de visitação e reconhecimento. Esse deslocamento é importante porque mostra que a frase tem menos o caráter de “palavra secreta” e mais o de fórmula ritual de legitimidade, cortesia e transmissão institucional

Simbolismo ritual de três vezes três

Na Maçonaria em geral, o três é um número estruturante. Ele organiza graus simbólicos, luzes, oficiais principais, baterias, viagens e várias tríades doutrinárias e morais. Literatura maçônica de síntese observa que muitas antigas tradições iniciáticas se distribuíam em três etapas e que a Maçonaria herdou, reelaborou e estabilizou esse prestígio do número. Em outros termos: o três não é apenas quantidade; é forma de ordenar o rito

Quando o três é reiterado como três vezes três, ele se converte em nove, e o nove passa a funcionar como um grau reforçado de solenidade. Em Cours philosophique et interprétatif des initiations anciennes et modernes, de Jean-Marie Ragon, lê-se que o “três vezes três” foi celebrado pelos antigos sábios como símbolo de corporização, circularidade e matéria, justamente por reunir uma triplicidade sobre outra triplicidade. A tradição enciclopédica maçônica de Albert Gallatin Mackey retoma a mesma linha e afirma, de modo explícito, que “em linguagem maçônica o número nove é sempre designado pela expressão três vezes três”. 

Isso não significa que haja uma única explicação “oficial” para o nove. Há, antes, um feixe de leituras: número de completude ritual; intensificação de honras públicas; ampliação do três; eco pitagórico; memória de baterias e saudações repetidas; em certos sistemas, valor do círculo e do retorno sobre si. O ponto seguro é que a fórmula “três vezes três” não é redundante: ela produz um acréscimo de peso simbólico e transforma a saudação em ato solenizado. 

O uso no Rito Adonhiramita

No plano das fontes primárias históricas, o núcleo de partida do rito é o já referido Recueil précieux de la maçonnerie adonhiramite. Na porção que consegui consultar em texto público, o catecismo de Aprendiz traz a cadeia clássica: “De onde vindes?”, “Que se faz na Loja de S. João?”, “Que trazeis?” e “Que vindes fazer aqui?”, com respostas como “On y élève des Temples à la vertu…” e “Salut, prospérité…”. O texto também explica, em nota, a associação da “Loja de S. João” a um quadro de purificação e de entrada ritual. Mas a forma exata “Le Maître de ma Loge vous salue par trois fois trois” não apareceu nessa porção do tomo consultado. Rigorosamente, portanto, ela não pode ser atribuída ao Recueil sem ressalva documental. 

Isso é relevante porque o Rito Adonhiramita, no Brasil, foi historicamente transmitido justamente por traduções manuscritas e impressas desse material francês. O historiador Pablo Antonio Iglesias Magalhães resume que, entre 1810 e 1836, circularam no Brasil manuscritos traduzidos do Recueil, e que os ritos usados pelos pedreiros-livres brasílicos antes de 1822 eram sobretudo o Adonhiramita e o Francês/Moderno. Em outras palavras: se a frase exata não é imediatamente localizável no estrato-base consultado, sua difusão posterior pode ter vindo de camadas paralelas ou posteriores da prática ritual franco-escocesa, e não necessariamente do primeiro catecismo adonhiramita impresso. 

No âmbito institucional atual, o rito permanece vivo Brasil e em nossa loja. Ao mesmo tempo, organismos adonhiramitas brasileiros contemporâneos apresentam-se como potências ou oficinas-chefes dos altos graus do rito, o que confirma a persistência da tradição litúrgica adonhiramita em território brasileiro, ainda que a documentação ritual oficial aberta ao público seja limitada. 

Uma obra brasileira recente de síntese histórica, 1782 – Rito Adonhiramita, afirma que o processo brasileiro de reforma do rito levou, entre os anos 1970 e 1980, a uma estrutura de 33 graus, com forte reformulação cerimonial, e registra também a restauração do Adonhiramita em Portugal em 2009 com apoio do GOB. Essa obra é útil como testemunho historiográfico interno contemporâneo, mas não substitui o valor das fontes primárias do século XVIII e XIX. Ainda assim, ela ajuda a explicar por que fórmulas hoje correntes entre IIr∴ adonhiramitas podem refletir camadas rituais modernas, não necessariamente idênticas ao texto-base antigo. 

Há ainda uma tradição ritualística interna – visível em resumos e materiais circulantes em plataformas abertas – segundo a qual o primeiro ritual adonhiramita brasileiro do GOB, em 1836, já organizaria nove oficiais em chave de “três vezes três”. Não localizei uma edição oficial aberta desse ritual de 1836 para conferência direta, de modo que essa informação deve ser tomada como plausível, porém não verificada em fonte primária aberta. Para um relatório rigoroso, o correto é assinalar esse ponto como não especificado / pendente de confirmação documental

Comparações com outros ritos

A comparação mais segura é menos entre “doutrinas” e mais entre formas de uso da expressão. Em alguns ritos e famílias rituais, “três vezes três” aparece como saudação de visitante; em outros, como honra públicabateriaaclamação ou até modo de concordância para comunicação de certos elementos em graus capitulares. Isso recomenda prudência: a frase não significa exatamente a mesma coisa em todos os contextos, embora mantenha um núcleo comum de honra ritual reforçada

Base do quadro: testemunho público franco-escocês em Guide des maçons Écossais; antecedente inglês em Masonry Dissected; usos honoríficos em Mackey e Duncan; literatura pública francesa do século XIX. 

A conclusão comparativa, portanto, é a seguinte: a frase “o V∴M∴ da minha Loja vos saúda por três vezes três” parece ter seu habitat textual mais nítido no universo franco-escocês e em suas recepções luso-brasileiras; no mundo inglês, sua estrutura sobrevive mais claramente sob a forma de tripla saudação e de grand honours do que exatamente na mesma redação. Isso explica por que, na prática maçônica brasileira, a fórmula soa tão “natural” em ritos de matriz francesa, mesmo quando a prova documental direta para o Adonhiramita primitivo é incompleta. 

Em Brasil, Portugal, França e Inglaterra

Na França, a fórmula está suficientemente difundida para aparecer em obras públicas do século XIX, inclusive de tom literário ou satírico, como Les Frères Trois-Points, e em compêndios históricos como a Histoire pittoresque de la Franc-Maçonnerie. Isso mostra que, naquele ambiente, a sequência “de onde vindes / que trazeis / o que mais trazeis / o V∴M∴ vos saúda…” já era reconhecível como marca da linguagem maçônica. 

No Brasil, o dado decisivo é duplo: de um lado, a circulação precoce do Recueil e dos ritos adonhiramita e francês antes de 1822; de outro, a permanência atual do Adonhiramita entre os ritos praticados pelo GOB e em potências filosóficas específicas. O resultado é um terreno fértil para a sobreposição de camadas litúrgicas: o Adonhiramita histórico francês, o Adonhiramita brasileiro reformado e a linguagem ritual franco-escocesa mais ampla. É justamente nessa sobreposição que a fórmula “três vezes três” encontra, no Brasil, sua grande força de permanência. 

Em Portugal, a historiografia interna contemporânea registra a restauração do rito em 2009, com apoio brasileiro, depois de um longo eclipse. Isso é importante porque sugere que parte da linguagem ritual portuguesa recente do Adonhiramita pode provir não apenas da tradição lusa antiga, mas também de uma retransmissão brasileira contemporânea

Na Inglaterra, por seu turno, a linhagem mais antiga localizável em fonte pública aponta para a tripla saudação (“greet you, greet you, greet you”) e para o uso de “three times three” sobretudo como fórmula honorífica em instalação, consagração e contextos capitulares. Isso faz da expressão francesa “par trois fois trois” algo mais característico da esfera continental e de seus desdobramentos do que do inglês craft padrão. Mesmo assim, a lógica simbólica de honra triplicada é comum aos dois ambientes. 

Implicações práticas e exemplos públicos

Do ponto de vista ritual, a frase produz quatro efeitos práticos. Primeiro, ela identifica o visitante como alguém ligado a uma oficina regular. Segundo, ela situa a autoridade: quem saúda não é um indivíduo isolado, mas o V∴M∴ da Loja de origem. Terceiro, ela marca o tom honorífico da entrada. Quarto, ela abre o direito de assento ou de participação, desde que o restante do telhamento seja satisfatório. No testemunho público do Guide des maçons Écossais, depois da fórmula vêm a explicação do que se faz na Loja, a declaração do intento do visitante e o pedido de “uma place parmi vous”; só então o V∴M∴ diz que a vaga lhe é adquirida e manda conduzi-lo ao lugar devido. 

Quanto aos gestos, a regra da prudência é simples: o que se pode dizer publicamente é que as fontes abertas falam em estar “de pé e à ordem”, na colocação do visitante entre os vigilantes, em pancadas anunciadas pelo mestre de cerimônias e, conforme o estatuto do visitante, em honras suplementares. As publicações abertas também associam “três vezes três” a aclamaçõesbateriaspancadas de malhete e grand honours. Mas os detalhes operativos variam por rito, por obediência, por grau e por época; por isso, não convém congelá-los como se houvesse uma única forma universal. 

Abaixo, um quadro de testemunhos públicos úteis para blog e estudo, sempre lembrando que “testemunho público” não equivale automaticamente a “norma oficial vigente”:

Base do quadro: Guide des maçons ÉcossaisMasonry Dissected; espelhos digitais públicos de rituais em português. 

Em termos de interpretação final, a expressão pode ser lida como uma frase de cadeia iniciática: Loja → V∴M∴ de origem → visitante → V∴M∴ da Loja visitada → assento entre os IIr∴. Ela é, portanto, menos uma senha e mais uma ponte ritual de reconhecimento fraterno. Quando dita corretamente em seu contexto, não comunica só urbanidade: comunica regularidade, procedência, honra e cobertura. Esse é, a meu ver, o seu significado mais sólido, sóbrio e publicamente defensável. 

Limitações e questões em aberto. Não localizei, nesta pesquisa, uma edição aberta e integral de constituições ou rituais oficiais brasileiros do Adonhiramita que permitisse comprovar, em fonte normativa primária acessível ao público, a presença exata da fórmula no uso simbólico corrente do rito no Brasil. Também não consegui confirmar, em edição aberta e verificável do Régulateur du Maçon, a mesma forma exata. Por isso, qualquer afirmação mais forte sobre “texto oficial atual” exigiria consulta direta a edições ritualísticas autorizadas de obediência, fora do escopo público disponível aqui.

Abaixo segue uma seleção de fontes priorizando obras históricas, historiografia acadêmica e páginas institucionais, já em formato fácil para copiar/colar em WordPress.

Marcos Veloso

N∴H∴ Thomas Edison M∴M∴
CIM∴ 4216
O saber de salomão Nº11, GORJ

Que nossa ordem prospere!!!!

Deixe um comentário

Rolar para cima